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TESTES DIAGNÓSTICO

 Português 11º ano   
 “Frei Luís de Sousa”: uma abordagem geral   

Para responderes às perguntas, precisas de ler o texto. Clica aqui.
1 - O Romantismo português está intrinsecamente ligado às transformações ideológicas que ocorreram no país no início:
    A)   da segunda década do séc. XVIII e que correspondem à tentativa de instauração do regime liberal em Portugal.
    B)   da segunda década do séc. XIX e que correspondem à tentativa de instauração do regime liberal em Portugal.
    C)   da segunda década do séc. XIX e que correspondem à tentativa de instauração do regime absolutista em Portugal.
    D)   da segunda década do séc. XVII e que correspondem à tentativa de instauração do regime liberal em Portugal.

2 - Almeida Garrett, recorrendo a muitos elementos da tragédia clássica, constrói um drama romântico, definido pelo seguinte aspecto:
    A)   pela tentativa de racionalmente negar a crença no destino, mas psicologicamente deixar-se afectar por pressentimentos e acreditar no sebastianismo
    B)   pela desvalorização dos sentimentos humanos das personagens
    C)   pelo uso do verso em substituição da prosa
    D)   com preocupações excessivas com algumas regras, como a presença do coro ou a obediência perfeita à lei das três unidades (acção, tempo e espaço).

3 - Madalena:
    A)   é casada em primeiras núpcias com D. João desaparecido em Aljubarrota
    B)   é infeliz e angustiada, vive perseguida pelo remorso de ter começado a amar Manuel em vida de D. João e por um medo de que o seu primeiro marido, cuja morte nunca foi confirmada, regresse
    C)   personagem clássica
    D)   não é produto da sociedade em que se insere

4 - Maria:
    A)   é filha de Madalena e de D. João
    B)   tem um crescimento precoce
    C)   está com os espanhóis
    D)   é anti-sebastianista.

5 - Telmo:
    A)   nutre por Manuel de Sousa Coutinho uma afeição, superior ao amor que tem por D. João
    B)   personagem anti-sebastianista
    C)   alimenta os remorsos de Madalena e as fantasias de Maria

6 - Manuel Coutinho:
    A)   é um fidalgo espanhol e cavaleiro de Malta
    B)   sofre uma evolução/transformação ao longo da peça
    C)   ao contrário de Madalena, Manuel é primeiro marido e só depois pai
    D)   é também símbolo do Portugal romântico

7 - D. João de Portugal:
    A)   é o segundo marido de D. Madalena a quem amava
    B)   feito cativo em Alcácer Quibir e prisioneiro, em Jerusalém, durante trinta anos
    C)   regressa na figura do Romeiro
    D)   simboliza o Portugal novo

8 - Frei Jorge:
    A)   é a personagem principal
    B)   é irmão de D. João
    C)   é dominicano
    D)   é a personagem que impõe um certo romantismo tentando manter o equilíbrio no meio da família angustiada e desfeita

9 - Qual destas opções é um dos aspectos trágicos da intriga de “Frei Luís de Sousa”?
    A)   estrutura bipartida da acção e complexidade da intriga
    B)   esboçar de um conflito entre as personagens e um destino implacável, revelado através de indícios e presságios
    C)   a experiência pessoal do autor
    D)   catástrofe final (desencadeada pela cena do reconhecimento) que acarreta a morte física (Madalena), psicológica (Manuel e Maria) e social (família) de todas as personagens.

10 - Qual dos momentos representa a “hybris”?
    A)   D. Madalena, ao casar com Manuel de Sousa Coutinho, desafia o destino, pois não tem a certeza absoluto de que o seu primeiro marido esteja morto; Maria revolta-se contra a justiça divina (na obra existe a intersecção entre o conceito de Destino clássico, que determina a vida dos homens, e a vontade de Deus), incitando os pais a mentir, para proteger a sua situação de ilegitimidade.
    B)   assistimos a uma mudança súbita de situação: com o aparecimento de D. João, na figura do Romeiro, o casamento de D. Madalena e de Manuel de Sousa Coutinho torna-se ilegítimo, motivando, por consequência, a ilegitimidade de Maria; por outro lado, o casal "suicida-se" para o mundo, recolhendo-se num convento.

11 - Qual dos momentos representa a “katastrophé”?
    A)   as personagens sofrem pelas suas incertezas, pela sua culpa (em relação a D. Madalena), pela inconstância dos seus sentimentos (em relação a Telmo), pelo facto de o casamento e Maria se tornarem objecto de ilegitimidade.
    B)   consiste na separação do casal e no seu “suicídio" para o mundo e na morte de Maria; Telmo vê-se esmagado pelo desgosto; para D. João de Portugal, após vinte e um anos de cativeiro, encontrar a sua esposa casada com outro homem, leva a que tenha a percepção de que já não tem lugar no mundo daqueles que conheceu, pelo que a sua situação se caracteriza pelo anonimato, pela falta de identidade.

12 - Qual destas opções é um dos aspectos românticos da intriga de “Frei Luís de Sousa”?
    A)   os agouros e as superstições populares dão expressão à manifestação da cultura portuguesa
    B)   os valores patrióticos e nacionais são exaltados, sobretudo, através de Madalena
    C)   a morte de Telmo.
    D)   o esboçar de um conflito entre as personagens e um destino implacável, revelado através de indícios e presságios

13 - Qual o acto que decorre numa "câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância dos princípios do século XVII", no palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em Almada? Neste espaço elegante parece brilhar uma felicidade, que será, apenas, aparente.
    A)   acto I
    B)   acto II
    C)   acto III

14 - O acto II:
    A)   acontece "no palácio que fora de D. João de Portugal, em Almada; salão antigo, de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de família...". As evocações do passado e a melancolia prenunciam a desgraça fatal.
    B)   passa-se na capela, que se situa na "parte baixa do palácio de D. João de Portugal". "É um casarão vasto sem ornato algum." O espaço denuncia o fim das preocupações materiais. Os bens do mundo são abandonados.

15 - A acção dramática de “Frei Luís de Sousa” acontece em 1599, durante o domínio filipino, 21 anos após a batalha de Alcácer Quibir. A acção reporta-se ao final do século XVI, embora a descrição do cenário do Acto I se refira à "elegância" portuguesa dos princípios do século XVII. O texto é, porém, escrito no século XIX, acontecendo a primeira representação em 1843.
    A)   Verdadeiro
    B)   Falso

16 - “Frei Luís de Sousa” apresenta uma tese sebastianista, pois todo o texto se desenvolva em torno desta temática. O regresso do passado ajuda o presente e viabiliza o futuro.
    A)   Verdadeiro
    B)   Falso

17 - D. Madalena procura saber notícias do seu primeiro marido durante sete anos, após os quais casa com Manuel de Sousa Coutinho.
    A)   Verdadeiro
    B)   Falso

18 - O carácter universal e atemporal de “Frei Luís de Sousa” é visível:
    A)   no conflito homem/mulher (temática romântica) presente, sobretudo em Madalena
    B)   na denúncia das arbitrariedades e da tirania e o apelo à defesa da liberdade (temática romântica) em Manuel de Sousa Coutinho e Maria

19 - Quais os registos de língua que coexistem na obra?
    A)   os registos cuidado e corrente
    B)   os registos corrente e familiar
    C)   os registos familiar e cuidado.
    D)   os registos cuidado e popular

20 - De acordo com as situações vividas pelas personagens e com os momentos da acção, podemos sintetizar as características da linguagem que sobressaem em relação a cada personagem. Assim, em D. Madalena destacam-se:
    A)   as frases inacabadas, de tipo exclamativo e interrogativo, a utilização de interjeições e de locuções interjectivas e as formas verbais no presente e no pretérito imperfeito do indicativo e no imperativo
    B)   as frases do tipo declarativo e imperativo (a partir do terceiro acto: frases de tipo exclamativo e interjeições), as formas verbais no presente do indicativo
    C)   as frases de tipo declarativo e exclamativo, a linguagem conotativa, as formas verbais no presente e no futuro do indicativo.

 
 
 
 
Dossier Frei Luís de Sousa

 

 

A importância d' Os Lusíadas no início da peça

 

Creio que Almeida Garrett não poderia ter concebido melhor cena para iniciar o Frei Luís de Sousa. Sendo esta obra, pela sua forma, um drama, "título modesto" com que o autor se contentou, como o deixou expresso na Memória ao Conservatório Real, é, efectivamente, pela sua essência, uma tragédia. Assim, teve o autor o cuidado de abrir a cortina com uma cena em que Madalena, sozinha, «como quem descaiu da leitura na meditação», repete, «maquinalmente e devagar», dois versos do episódio de Inês de Castro, de Os Lusíadas.

 

«Naquele engano d'alma ledo e cego / Que a fortuna não deixa durar muito...»

 

 O solilóquio de Madalena evoca aspectos particularmente pertinentes: o carácter trágico do episódio determinado pelo destino (fortuna), à boa maneira clássica, e a diferença que ela própria sente em relação a Inês. «Viveu-se, pode-se morrer.», diz Madalena, só que o medo e os terrores que a perseguem (note-se a gradação crescente) não lhe permitiram ainda que vivesse, levando-a, no final da cena, a desabafar: «...que desgraça a minha!»

 

Temos, pois, o primeiro indício de que acção se encaminhará inevitavelmente para a catástrofe.

Por outro lado, o facto de Garrett ter colocado Madalena a ler Os Lusíadas propicia a segunda fala de Telmo (cena II), que considera este livro «como não há outro, tirante o respeito devido ao da palavra de Deus», que não conhece por não saber latim como o seu «senhor». Tal dito, aparentemente um lapso do domínio do subconsciente, foi o suficiente para que Telmo, como que censurado pelo seu consciente,  corrigisse: «... quero dizer, como o Sr. Manuel de Sousa Coutinho». Esta correcção evidencia o conflito existente entre ambas as personagens, já que o que Telmo pretende é justamente lembrar a Madalena que o seu senhor continua a ser D. João de Portugal, em cuja morte não acredita, como podemos verificar no decurso da mesma cena.

 

A utilização de Os Lusíadas em Frei Luís de Sousa pode ser tudo menos surpreendente. Não nos esqueçamos de que o Romantismo, em Portugal, por convenção, teve o seu início em 22 de Fevereiro de 1825, data da publicação, em Paris, de Camões, poema em dez cantos, de Almeida Garrett. Era, sem dúvida, Garrett um camonianista, por isso não estranha que soubesse que uma das formas que os que se opunham à governação filipina encontraram para alimentar o sebastianismo foi precisamente o fomento da leitura da epopeia nacional. Nunca, até então, Os Lusíadas haviam tido tão elevado número de tiragens.

 

Assim, aparentemente, Madalena surge em cena duplamente marcada pelo destino: todo o simbolismo do episódio de Inês de Castro e o prenúncio de um sebastianismo que só lhe poderá ser adverso.

 

 

 

O Romantismo na obra

O Frei Luís de Sousa apresenta alguns dos tópicos românticos, tais como:

- Sebastianismo - alimentado por Telmo e Maria;

- patriotismo e nacionalismo - além do que decorre do Sebastianismo, deve-se ter em conta o comportamento de Manuel de Sousa Coutinho ao incendiar o seu próprio palácio para impedir que fosse ocupado pelos Governadores ao serviço de Castela;

- crenças e superstições - alimentadas por Madalena, Telmo e Maria, que, sistematicamente, aludiam a agouros, visões, sonhos;

- religiosidade - uma referência de todas as personagens; note-se, no entanto, a religiosidade de Manuel de Sousa Coutinho, que inclui o uso da razão e que determina a entrada em hábito como solução do conflito; Madalena, por exemplo, não compreende a atitude de Joana de Castro, a condessa de Vimioso que se tornou freira (Soror Joana);

- individualismo - o confronto entre o indivíduo e a sociedade é particularmente visível em Madalena;

- tema da morte - a morte como solução dos conflitos é um tema privilegiado pelos românticos; no caso do Frei Luís de Sousa, verifica-se:

- a morte física de Maria (morre tuberculosa);

- a morte simbólica de Madalena e de Manuel, que, ao tomarem o hábito, morrem para a vida mundana;

- morte simbólica de D. João de Portugal que, depois de admitir que morreu no dia em que sua mulher o julgou morto, simbolicamente, morre uma segunda vez, quando Telmo, depois de lhe ter desejado a morte física como única maneira de salvar a sua menina, o seu anjo (Maria), aceita colaborar com o Romeiro no sentido de afirmar que se trata de um impostor, numa última tentativa de evitar a catástrofe;

- morte psicológica de Telmo.

                                                              CLASSIFICAÇÃO DA OBRA

«Garrett disse na Memória ao Conservatório que o conteúdo do Frei Luís de Sousa tem todas as características de uma tragédia. No entanto, chama-lhe drama, por não obedecer à estrutura formal da tragédia:

não é em verso, mas em prosa;

não tem cinco actos;

não respeita as unidades de tempo e de lugar;

não tem assunto antigo.

Sendo assim, quase podemos dizer que é uma tragédia, quanto ao assunto. Na verdade,

1.           o número de personagens é diminuto;

2.           Madalena, casando sem ter a certeza do seu estado livre, e Manuel de Sousa, incendiando o palácio, desafiam as prepotências divinas e humanas (a hibris);

3.           uma fatalidade ( a desonra de uma família, equivalente à morte moral), que o assistente vislumbra logo na primeira cena, cai gradualmente (climax) sobre Madalena, atingindo todas as restantes personagens (pathos);

4.           contra essa fatalidade os protagonistas não podem lutar (se pudessem e assim conseguissem mudar o rumo dos acontecimentos, a peça seria um drama); limitam-se a aguardar, impotentes e cheios de ansiedade, o desfecho que se afigura cada vez mais pavoroso;

5.           há um reconhecimento: a identificação do Romeiro (a agnorisis);

6.           Telmo, dizendo verdades duras à protagonista, e Frei Jorge, tendo sempre uma palavra de conforto, parecem o coro grego.

Mas, por outro lado, a peça está a transbordar de romantismo:

1.           a crença no sebastianismo;

2.           a crença no aparecimento dos mortos, em Telmo;

3.           a crença em agouros, em dias aziagos, em superstições;

4.           as visões de Maria, os seus sonhos, o seu idealismo patriótico;

5.           o «titanismo» de Manuel de Sousa incendiando a casa só para que os Governadores do Reino a não utilizassem;

6.           a atitude que Maria toma no final da peça ao insurgir-se contra a lei do matrimónio uno e indissolúvel, que força os pais à separação e lhos rouba.

Se a isto acrescentarmos certas características formais, como

7.           o uso da prosa;

8.           a divisão em três actos;

9.           o estilo todo, do princípio ao fim,

teremos que concluir que é um drama romântico, com lances de tragédia apenas no conteúdo

Barreiros, António José, História da Literatura Portuguesa, vol. II

 

SEBASTIANISMO

 

«[...] Veio depois a derrota de Alcácer Quibir e o desaparecimento do Rei (1578). A nação caiu sob o domínio castelhano. A literatura chorou, com a perda de D. Sebastião, o desfazer das esperanças desmedidas, a ruína dum povo que, havia pouco, deslumbrara o mundo com os Descobrimentos e a criação de um grande Império. Vasco Mouzinho de Quevedo, por exemplo, recorda doridamente o Rei, «Sebastião cuja morte inda hoje é viva, / Renovando-se sempre de ano em ano». Foi então que surgiu, como instintiva reacção, o sebastianismo. Julgou-se que só a fé visionária poderia salvar-nos. Na primeira metade do séc. XVI vários pretensos profetas, desafiando os rigores da Inquisição, haviam aliciado adeptos, nomeadamente cristãos novos. Entre esses «profetas» contava-se Gonçalo Anes, de alcunha «o Bandarra», sapateiro de Trancoso (Beira Alta), homem cujas trovas, largamente divulgadas, se tornariam «o evangelho do sebastianismo». O Bandarra (falecido em 1545, segundo um epitáfio mandado gravar no séc. XVII) tinha-se inspirado na Bíblia para verberar a corrupção da época e fazer obscuras predições, entre as quais, parece, estavam a da conquista de Marrocos, a da derrota dos Turcos e a do Quinto Império. [...] 

Durante o séc. XIX, o sebastianismo foi passando da esfera política para os domínios literário e culturológico. O sonho heróico de D. Sebastião, a sua morte na batalha, o mito do seu regresso e a quimera do Quinto Império inspiram poetas e prosadores. [...] No Frei Luís de Sousa de Garrett, é Telmo, o velho criado, quem associa à fé no retorno do Rei a convicção de que D. João de Portugal, seu amado amo, um dia aparecerá.»

(Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA)

 

 

No Frei Luís de Sousa, o mito sebastianista alimenta, desde o início, o conflito vivido pelas personagens, na medida em que a admissão do regresso de D. Sebastião implicava idêntica possibilidade da vinda de D. João de Portugal, que combatera ao lado do rei na batalha de Alcácer Quibir, o que, desde logo, colocaria em causa a legitimidade do segundo casamento de D. Madalena. Não é inocente, nem fruto do acaso, o facto de Garrett ter concebido que Madalena aparecesse em cena justamente a ler Os Lusíadas. Efectivamente, tal facto está também associado ao mito sebastianista que, deste modo, marca a obra desde o seu início .

Quem se encarregará, pois, de dar corpo a tal mito? Telmo Pais, o velho aio de D. João e em cuja morte não acredita, e Maria, filha de D. Madalena de Vilhena e de Manuel de Sousa Coutinho, educada por Telmo.

 

Tragédia

Composição originária da Grécia antiga e que, de acordo com a Poética de Aristóteles, apresentava como principais elementos caracterizadores o facto de despertar, no público, o terror e a piedade. Para os autores clássicos, a tragédia era o mais nobre dos géneros literários.

No teatro da Grécia clássica, a tragédia era constituída por cinco actos: o prólogo, que corresponde ao primeiro acto; os episódios, correspondentes ao segundo, terceiro e quarto actos; e o êxodo, correspondente ao quinto acto. Além dos actores, intervinha o coro, que manifestava a voz do bom senso, da harmonia, da moderação, face à exaltação dos protagonistas.
Característica também da tragédia clássica era a chamada lei das três unidades: unidade de espaço, de tempo e de acção, que conferia a este género uma intensidade e densidade particulares, graças à concentração de todos os elementos num único local, no espaço de um dia e numa acção assente nos acontecimentos estritamente necessários.

Do ponto de vista temático, a tragédia apresenta um herói que, desafiando propositada ou involuntariamente as leis dos deuses, é por estes castigado. Os mais destacados tragediógrafos gregos foram Ésquilo, Sófocles e Eurípides


Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Hybris - Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma acção ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos (leis dos deuses, leis da cidade, leis da família, leis da natureza).

Pathos - Sofrimento, progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankê) e executado pelas Parcas (Cloto, que presidia ao nascimento e sustinha o fuso na mão; Láquesis, que fiava os dias da vida e os seus acontecimentos; Átropos, a mais velha das três irmãs, que, com a sua tesoura fatal, cortava o fio da vida), como consequência da sua ousadia.

Ágon - Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida.

Anankê - É o Destino. Preside às Parcas e encontra-se acima dos próprios deuses, aos quais não é permitido desobedecer-lhe.

Peripécia - Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário". Assim, poderemos considerar um acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos da acção dramática, ao contrário do que a situação até então poderia fazer esperar.

Anagnórise (Reconhecimento) - Segundo Aristóteles, "o reconhecimento, como indica o próprio significado da palavra, é a passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para a amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou a desdita." Aristóteles acrescenta: "A mais bela de todas as formas de reconhecimento é a que se dá juntamente com a peripécia, como, por exemplo, no Édipo." O reconhecimento pode ser a constatação de acontecimentos acidentais, trágicos, mas, quase sempre, se traduz na identificação de uma nova personagem, como acontece com a figura do Romeiro no Frei Luís de Sousa.

Catástrofe - Desenlace trágico, que deve ser indiciado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desafio da personagem) e a anankê (destino), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante). Segundo Aristóteles, a catástrofe " é uma acção perniciosa e dolorosa, como o são as mortes em cena, as dores veementes, os ferimentos e mais casos semelhantes."

Katharsis (Catarse) - Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédia, através do terror (phobos) e da piedade (eleos) que deve provocar nos espectadores.

 

 

Ficha de Trabalho

FICHA DE TRABALHO

 

MADALENA Só, sentada junto à banca os pés sobre uma grande almofada, um livro aberto no regaço e as mãos cruzadas sobre ele, como quem descaiu da leitura na meditação.

MADALENA (repetindo maquinalmente e devagar o que acabava de ler.)

«Naquele engano de alma ledo e cego

Que a fortuna não deixa durar muito...»

Com paz e alegria de alma... um engano, um engano de poucos instantes que seja... deve de ser a felicidade suprema neste mundo. – E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu!... (Pausa) Oh! que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo... este medo, estes contínuos terrores que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. – Oh que amor, que felicidade... que desgraça a minha! (Torna a cair em profunda meditação: silêncio breve.)

 

1.       Localize esta cena na globalidade da obra em questão.

2.       Refira, sucintamente, o assunto desta cena.

3.       Indique o estado de espírito de D. Madalena, justificando.

4.       Que relação se estabelece entre Inês de Castro e D. Madalena? Menciona os recursos estilísticos e a respectiva expressividade.

5.       Esta cena constrói-se a partir de dois aspectos: a gradação e a circularidade. Comprove-os.

6.       Tratando-se de um autor romântico, Almeida Garrett usou certamente diversas características dessa corrente literária. Enumere as que se encontram presentes nesta cena.

7.       Detecte os elementos trágicos presentes nesta cena.

Qual a importância desta cena na economia da peça.
Sebastianismo em Frei Luís de Sousa

O Sebastianismo em Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett

Almeida Garrett, escritor de características arcádicas e românticas, do início do século XIX, é autor de algumas das obras fundamentais da Literatura Portuguesa, entre as quais Viagens na Minha Terra é o expoente máximo. Trata-se de um olhar crítico da sociedade portuguesa, com descrições deliciosas sobre a nobilitação de muitos burgueses que outrora haviam desdito das práticas da Nobreza e, afinal, acabaram por conhecer o mesmo fim...

Em Frei Luís de Sousa, o mito sebastianista está bem presente. A história da peça aborda uma autêntica catástrofe que se abateu sobre a vida de uma família nobre do final do século XVI. Tem como característica peculiar o facto de todas as personagens assumirem, ao longo do enredo, posições coerentes e de uma grande dignidade, pelo que é difícil definir quem é a personagem principal, da mesma forma que, no final, perante tão graves consequências de toda a tragédia abatida, surge no leitor uma sensação de profunda injustiça.

De uma forma resumida, o enredo é o seguinte: D. João de Portugal, um nobre muito respeitado na sociedade, desapareceu, em 1578, na batalha de Alcácer Quibir, por sinal a mesma na qual o rei D. Sebastião perdeu a vida. Contudo, a morte de D. João de Portugal nunca foi provada, passando-se exactamente o mesmo com D. Sebastião.

Entretanto, a mulher de D. João de Portugal, D. Madalena, esperou sete anos pelo marido, uma espera que se revelou infrutífera. Pese ter casado com D. João de Portugal, a meio da peça o leitor dá-se conta do facto de ela nunca o ter amado verdadeiramente. Pelo contrário, o homem que amava era Manuel de Sousa Coutinho, um português fiel aos valores patrióticos e inconformado com o domínio espanhol, que se vivia na altura em Portugal (1599).

Tomando uma atitude corajosa, Manuel e Madalena vão desafiar a sorte (hybris), casando sem ter a certeza da morte de D. João de Portugal. E aí começa a verdadeira dimensão trágica desta peça magistralmente gizada por Garrett: realmente, tudo apontava para uma alta improbabilidade da hipótese de D. João de Portugal ainda estar vivo e mesmo a sociedade via com bons olhos o casamento entre Manuel e Madalena. O casal teve uma filha, D. Maria de Noronha, uma jovem muito especial, culta, adulta, mas simultaneamente criança e fisicamente débil. Ora, aqui surge o grande drama da acção: caso D. João de Portugal, por uma possibilidade trágica, ainda estivesse vivo, Maria era uma filha ilegítima, o que, para a sociedade da época, era um pecado muito grave.

Temendo a catástrofe, D. Madalena tem constantemente premonições trágicas, as quais vão ser concretizadas com a chegada de um Romeiro, que diz vir da Terra Santa e querer falar com Madalena. Ao revelar a sua identidade, uma série de consequências irão advir. Mostrando uma dignidade tocante, Manuel de Sousa Coutinho rende-se ao destino cruel e vai professar, juntamente com Madalena. Maria, a filha, revoltar-se-á contra uma sociedade retrógrada que, por uma questão meramente formal, passou subitamente de aprovadora para acusadora: «Vós quem sois, espectros fatais?... Quereis-mos tirar dos meus braços?... Esta é a minha mãe, este é o meu pai... Que me importa a mim com o outro, que morresse ou não, que esteja com os mortos ou com os vivos...» De nada lhe valeu a revolta, antes pelo contrário. O seu rótulo de ilegítima custar-lhe-á a morte por vergonha.

Outros aspectos igualmente interessantes poderiam ser referidos e ajudariam à compreensão desta magnífica peça - nomeadamente o papel de Telmo Pais. Todavia, importa realçar que por toda a obra perpassa um carácter sebastianista

Frei Luís de Sousa

Frei Luís de Sousa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Nota: Se procura pelo Arcebispo de Lisboa homónimo, consulte Luís de Sousa.
Nota: Se procura pelo homem que inspirou a obra de Almeida Garrett, consulte Manuel de Sousa Coutinho.

Drama em três actos de Almeida Garrett, estreado em 1843 e publicado em 1844 com notas do autor, baseado livremente na vida de Manuel de Sousa Coutinho, que na vida eclesiástica assumiu o nome de Frei Luís de Sousa.

Índice

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[editar] Resumo da Obra

Esta obra de Almeida Garrett aconteceu no decorrer do século XIX, retrata a vida de D. Manuel Coutinho e da sua esposa D. Madalena de Vilhena, uma mulher muito supersticiosa, que acredita que qualquer sinal que achasse fora do normal era uma chamada de atenção para acções futuras, um presságio. Enquanto que D. Manuel, um homem corajoso, patriota e apaixonado por Madalena, não se importa com o passado da sua esposa, esta vive com muitos receios em relação ao facto do seu primeiro marido, D. João de Portugal, que, apesar de se pensar que terá sido morto na batalha de Alcácer Quibir, está ainda vivo e regressa a Portugal tornando ilegítimo o casamento de D. Manuel. Este facto valoriza a liberdade de amor, mesmo contra os ideais sociais da época. O dramatismo desta obra é mais acentuado quando o autor concede ao casal uma filha, Maria de Noronha, uma jovem que sofre de tuberculose. Pura, ingénua, curiosa, corajosa, perfeitamente inocente dos actos dos seus pais, é a personificação da própria beleza e pureza que se consegue originar mesmo num casamento condenável. É-lhes concedido também um aio, Telmo Pais, que ainda é leal ao seu antigo amo, D. João de Portugal, para além de ser contra o segundo casamento de D. Madalena. Conselheiro atencioso e prestativo que tem um carinho enorme por Maria. O desfecho da obra é originado por Manuel de Sousa que incendeia a sua casa a fim de não alojar os governadores. Ao perceber que D. Manuel destruíra a sua própria casa, onde residia o quadro de D. Manuel, Madalena toma esta situação como um presságio, pressentindo que iria perder D. Manuel tal como perdeu a sua casa e o seu quadro. Consequentemente, Manuel vê-se forçado a habitar na residência que dantes fora de D. João de Portugal. Este regressa à sua antiga habitação, como romeiro, e frisa as apreensões de Madalena ao identificar o quadro de D. Manuel. Com esta revelação, o casal decide ingressar na vida religiosa adoptando novos nomes: Frei Luís de Sousa e Sóror Madalena. O conflito desenvolve-se num crescente até ao clímax, provocando um sofrimento (pathos) cada vez mais cruel e doloroso. Esta obra está tão bem organizada, ou seja, os acontecimentos estão tão bem organizados, que nada se pode suprimir sem que se altere o conflito e o respectivo desenlace. Considera-se um drama romântico pois possui algumas características de um clássico: o nacionalismo, o patriotismo, a crença em agoiros e superstições, o amor pela liberdade (elementos românticos); indícios de uma catástrofe, o sofrimento crescente, o reduzido número de personagens, peripécias, o coro (elementos clássicos).'Basicamente é isto!

[editar] Temas

Um dos temas mais importantes da obra é, sem dúvida, o da liberdade de amar, mesmo contra as convenções sociais da época. A personagem de Maria de Noronha, a filha adolescente perfeitamente inocente dos actos de seus pais, é a própria personificação da beleza e da pureza que pode ser engendrada mesmo por uma relação socialmente condenável. A recepção da obra não deixou de ver nisto um paralelo com a vida do autor, que se separara da primeira mulher para viver em mancebia com D. Adelaide Pastor, da qual tivera igualmente uma filha ilegítima. O tema do amor livre interessou igualmente Alexandre Herculano e foi abundantemente glosado no segundo romantismo português, nomeadamente por Camilo Castelo Branco.

[editar] Importância

Frei Luís de Sousa, que continua a ser considerado um clássico da literatura de língua portuguesa e uma das criações máximas do seu teatro, foi inicialmente apenas lido a um grupo selecto de amigos do autor (entre os quais Herculano). A primeira representação fez-se em privado, no teatro da Quinta do Pinheiro, no mesmo ano de 1843, tendo o próprio Garrett desempenhado o papel de Telmo. A peça só teve a sua estreia pública em 1847, no Teatro do * 1 - Salitre, em versão censurada pelo regime cabralista. A versão integral só foi levada à cena no então Teatro Nacional (actual Teatro Nacional de D. Maria II) em 1850.

[editar] Bibliografia

  • 1 - SOUSA (Frei Luís de) - ANAIS DE D. JOÃO III / com prefácio e notas do / Prof. M. Rodrigues Lapa / VOLUME I (e II) / LIVRARIA SÁ DA COSTA - EDITORA / Rua Garrett, 100 - 102 LISBOA (1938). 2 vols. O autor nasceu em Santarém em 1555, vindo a morrer no Convento dos Dominicanos de Benfica, em Lisboa em 1632. O seu nome Manuel de Sousa Coutinho adquiriu grande fama devido ao romance escrito por Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa. Foi cavaleiro da Ordem de Malta, foi preso por piratas mouros e levado para Argel, quando navegava no Mediterrâneo. Na prisão conheceu Cervantes, que faz referência ao autor na sua obra « Los Trabajos de Persiles y Sigismundo». Regressou a Portugal e ficou em Valência, vindo depois para a sua casa de Almada, onde era Capitão-mor da vila e Guarda-mor da saúde. Para não receber em sua casa os governadores que a tinham requisitado, resolveu incendiá-la antes que eles chegassem. Casou com D. Madalena de Vilhena e do casamento teve uma filha, D. Ana de Noronha, morta ainda nova. Segundo se crê, foi por esse motivo que entraram os dois para o Convento, indo êle para o de São Domingos de Benfica e ela para o do Sacramento. Na Ordem, foi encarregado de continuar a Crónica da Ordem, começada por Frei Luís de Cácegas. Grande parte das sua obras literárias foram publicadas depois da sua morte. Exerceu o cargo de enfermeiro e viveu com grande austeridade.

[editar] Sites relacionados

http://faroldasletras.no.sapo.pt/frei_luis_de_sousa.htm

Almeida Garrett

Almeida Garrett

 

 

Almeida Garrett

almeida garrett

João Baptista da Silva Leitão e mais tarde visconde de Almeida Garrett, (Porto, 4 de Fevereiro de 1799Lisboa, 9 de Dezembro de 1854) foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, Par do Reino, ministro e secretário de Estado honorário português.

Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.

 

Primeiros anos

João Baptista da Silva Leitão nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 1799.Na adolescência foi viver para os Açores, em Angra do Heroísmo, quando as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal e onde era instruído pelo tio, D. Alexandre, bispo de Angra. Em 1816 seguiu para Coimbra, onde se matriculou no curso de Direito. Em 1821 publicou O Retrato de Vénus, trabalho que lhe custou um processo por ser considerado materialista, ateu e imoral.E neste mesmo ano que ele e sua família passam a usar o apelido de Almeida Garrett.

Presença nas lutas liberais

Participou da revolução liberal de 1820, seguindo para o exílio na Inglaterra em 1823, após a Vilafrancada. Antes havia casado com Luísa Midosi, de apenas 14 anos. Foi em Inglaterra que tomou contacto com o movimento romântico, descobrindo Shakespeare, Walter Scott e outros autores e visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se reflectiriam na sua obra posterior. Em 1824, seguiu para França, onde escreveu Camões (1825) e Dona Branca (1826), poemas geralmente considerados como as primeiras obras da literatura romântica em Portugal. Em 1826 foi amnistiado e regressou à pátria com os últimos emigrados dedicando-se ao jornalismo, fundando e dirigindo o jornal diário O Português (1826-1827) e o semanário O Cronista (1827). Teria de deixar Portugal novamente em 1828, com o regresso do Rei absolutista D. Miguel. Ainda nesse ano perdeu a filha recém-nascida. Novamente em Inglaterra, publica Adozinda (1828) e Catão (1828).

Juntamente com Alexandre Herculano e Joaquim António de Aguiar, tomou parte no Desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto em 1832 e 1833.

Vida política

A vitória do Liberalismo permitiu-lhe instalar-se novamente em Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e encarregado de negócios, onde lê Schiller, Goethe e Herder. Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais. Foram de sua iniciativa a criação do Conservatório de Arte Dramática, da Inspecção-Geral dos Teatros, do Panteão Nacional e do Teatro Normal (actualmente Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro, Garrett procurou sobretudo renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro.
Com a vitória cartista e o regresso de
Costa Cabral ao governo, Almeida Garrett afasta-se da vida política até 1852.Contudo, em 1850 subscreveu, com mais de 50 personalidades, um protesto contra a proposta sobre a liberdade de imprensa, mais conhecida por “lei das rolhas”.

Garrett sedutor

A vida de Garrett foi tão apaixonante quanto a sua obra. Revolucionário nos anos 20 e 30, distinguiu-se posteriormente sobretudo como o tipo perfeito do dandy, ou janota, tornando-se árbitro de elegâncias e príncipe dos salões mundanos.Foi um homem de muitos amores, uma espécie de homem fatal. Separado da esposa, passa a viver em mancebia com D. Adelaide Pastor até à morte desta em 1841. A partir de 1846, a sua musa é a viscondessa da Luz, Rosa Montufar Infante, inspiradora dos arroubos românticos das Folhas caídas. Em 1851, Garrett é feito visconde de Almeida Garrett em duas vidas, e em 1852 sobraça, por poucos dias, a pasta dos Negócios Estrangeiros em governo presidido pelo Duque de Saldanha.

Falece em 1854, vítima de cancro, em Lisboa, na sua casa situada na actual Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique.

Obras: Teatro

Dá início ao seu projecto de regeneração do teatro português, levando à cena em 1838 Um Auto de Gil Vicente, pouco antes Filipa de Vilhena e, em 1842, O Alfageme de Santarém, todas sobre temas da história de Portugal. Em 1844 é publicada a sua obra-prima, Frei Luís de Sousa, que um crítico alemão, Otto Antscherl, considerou a "obra mais brilhante que o teatro romântico produziu". Estas peças marcam uma viragem na literatura portuguesa não só na selecção dos temas, que privilegiam a história nacional em vez da antiguidade clássica, como sobretudo na liberdade da acção e na naturalidade dos diálogos.

Prosa

Em 1843, Garrett publica o Romanceiro e o Cancioneiro Geral, colectâneas de poesias populares portuguesas, e em 1845 o primeiro volume d'O Arco de Santana (o segundo apareceria em 1850), romance histórico inspirado por Notre Dame de Paris de Victor Hugo. Esta obra seduz não só pela recriação do ambiente medieval do Porto, mas sobretudo pela qualidade da prosa, desespartilhada das convenções anteriores e muito mais próxima da linguagem falada.

A obra que se lhe seguiu deu expressão ainda mais vigorosa a estas tendências: Viagens na minha terra, livro híbrido em que impressões de viagem, de arte, paisagens e costumes se entrelaçam com uma novela romântica sobre factos contemporâneos do autor e ocorridos na proximidade dos lugares descritos (outra inovação para a época, em que predominava o romance histórico). A naturalidade da narrativa disfarça a complexidade da estrutura desta obra, em que alternam e se entrecruzam situações discursivas, estilos, narradores e temas muito diversos.

Poesia

Na poesia, Garrett não foi menos inovador. As duas coletâneas publicadas na última fase da sua vida (Flores sem fruto, de 1844, e sobretudo Folhas caídas, de 1853) introduziram uma espontaneidade e uma simplicidade praticamente desconhecidas na poesia portuguesa anterior. Ao lado de poemas de exaltada expressão pessoal surgem pequenas obras-primas de singeleza ímpar como «Pescador da barca bela», próximas da poesia popular quando não das cantigas medievais. A liberdade da metrificação, o vocabulário corrente, o ritmo e a pontuação carregados de subjectividade são as principais marcas destas obras.

Relevância na literatura portuguesa

No século XIX e em boa parte do século XX, a obra literária de Garrett era geralmente tida como uma das mais geniais da língua, inferior apenas à de Camões. A crítica do século XX (notavelmente João Gaspar Simões) veio questionar esta apreciação, assinalando os aspectos mais fracos da produção garrettiana. No entanto, a sua obra conservará para sempre o seu lugar na história da literatura portuguesa, pelas inovações que a ela trouxe e que abriram novos rumos aos autores que se lhe seguiram. Garrett, até pelo acentuado individualismo que atravessa toda a sua obra, merece ser considerado o autor mais representativo do romantismo em Portugal.

Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Almeida_Garrett"

 

Génese do "Frei Luís de Sousa"
Tem-se escrito que este drama é a projecção poética da própria vida de Garrett. Não se devendo confundir obra e autor, não deixa de ser curioso mostrar as coincidências entre Garrett e Frei Luís de Sousa.
 
Garrett
Frei Luís de Sousa
. Casamento com Luísa Cândida Midosi, sem descendência.
. Casamento de Madalena com D. João de Portugal, sem descendência (segundo a história, teve 3 filhos).
. Separado de Luísa Midosi, passa a viver com Adelaide Pastor Deville - o seu grande amor.
. Casamento de D. Madalena com Manuel de Sousa Coutinho - o seu grande amor.
. Da sua ligação com Adelaide, nasce a única filha: Maria Adelaide, por quem sente grande desvelo.
. Do casamento com Manuel de Sousa Coutinho, nasce a única filha: Maria de Noronha (segundo a história, chamava-se Ana de Noronha).
. O problema da ilegitimidade de Maria Adelaide atormenta Garrett.
. D. Madalena vive atormentada pelo mesmo problema.
. Adelaide Pastor morre tuberculosa.
. Maria de Noronha é tuberculosa.
. Luísa Midosi é uma ameaça contínua à tranquilidade adquirida com Adelaide.
. D. João de Portugal regressa, depois de ter sido uma ameaça permanente, para ocupar o seu lugar.

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