Conquista Inútil
Há duas condições para se escreverem boas histórias, disseram-me: devem ser breves e verdadeiras.
Uma boa história conta episódios carregados de singularidade extrema ou de incredibilidade profunda. A originalidade da vida e das pessoas suspensa no dizer da memória.
Sou absolutamente anónima e não pertenço a qualquer associação não governamental de contadores de histórias. Tenho apenas uma história simples, sobre um tempo simples, um tempo tão doce e tão denso como a própria imutabilidade da lembrança. Há factos que transcendem a nossa capacidade para os conhecermos ou compreendermos objectivamente, mas que, apesar disso, são factos.
A D. Albina foi sempre uma aflição na minha vida. A minha professora da escola primária obrigava-me a viver no purgatório e fazia tudo para a transformar num inferno. Uma aflição de que ainda, até há bem pouco tempo, padecia. Quando a figura boçal aparecia num passeio traiçoeiro, empurrava-me para trás de um qualquer carro, a adivinhar-lhe o troar da caminhada inconfundível, a rezar a “Estrelinha Gloriosa”, cronometrando a esperança de não me espetar um beijo pintado de vermelho-cereja, a cheirar a naftalina. Se me enganasse a pronunciar a oração, prometida estava a saudação que reservava só para mim: «O que é que estás para aí fazer agachada? Sempre no ar, rapariga!».
Eu perdia tudo. Quer dizer quase tudo e, quando não perdia, fazia desaparecer. Tudo o que me vinha parar às mãos tinha, invariavelmente, um de dois destinos: ou desaparecia misteriosamente, ou a minha irmã fazia desaparecer de propósito. A Providência, ocupada em restaurar perdas mais importantes, não escutava as minhas preces. A minha mãe dizia-me que era distracção de génio. E eu ficava feliz.
Qual era a cor da minha aflição? O branco, mas o da minha bata da escola primária. A que cheirava? A papel amarrotado, de tantas vezes que eu apagava nele, com a borracha já a ferver, uma frase que tremia de medo por não ser, gritava-me a D. Albina, modesta. A que sabia a aflição? Ao meu grito mudo, quando tinha de me levantar para suportar, mais um dia, a D. Albina. Pregava os olhos na minha mãe à espera que me adivinhasse uma febre súbita. Um pequeno jogo que costumávamos jogar, mas sempre com o mesmo resultado.
Lembro-me que foi a uma segunda-feira à tarde e chovia. O frio corroía, desfiando qualquer agasalho mais forte.
Cheguei a casa, depois das aulas e de uma interminável caminhada pelas pantanosas poças de água. Havia sulcos e trilhos profundos na lama, onde me afundava. Mas ia para casa e isso é que era importante.
- Mamã! A cerimónia da festa de Natal…lá na escola…
A minha mãe fixou-me, francamente confusa:
- Leonor, onde é que deixaste a bata?
Inclinei-me e vi as botas de borracha vermelhas, as calças salpicadas de lama, o pesado casaco. Fiquei tão perplexa quanto a minha mãe. Não trazia o figurino todo e o mais surpreendente é que eu não tinha dado por nada. Mais, lembrava-me perfeitamente de que levara a bata para a escola. E a minha mãe também.
- Vão dar-me o papel da Carochinha!
Eu bem queria adiar o penoso interrogatório, mas o olhar de inquisidor-mor não desapareceu.
- Sim… – respondeu-me a “Inquisição” – …e a bata?
Corremos até à escola. Procurámos nos passeios e no recreio, nos corredores e na sala de aula, mas da minha bata branca, nada. Nem sinal!
A minha mãe respeitou o silêncio estóico do meu regresso a casa. Eu era um alvo demasiado fácil. Aliás, nunca respondia a provocações. Mantinha-me firme e permanecia distante. Mas havia fracturas nesta minha armadura e as lágrimas gordas caíam, sulcando devagar a minha cara fria. Sempre chorei assim…devagarinho.
- Então, minha Carochinha, conta lá…
- É verdade Mamã! A D. Albina, sabes, convidou-me para ser a Carochinha…a do João Ratão! Vamos ensaiar e representar na festa de Natal. Não é “fantabuloso”, Mamã? – fervia de entusiasmo.
- Isso é mais do que “fantabuloso”! Pedimos à Avó que te faça o fato da Carochinha. Serás a mais bela de todas, nem precisarás do pregão: “Quem quer casar com a Carochinha, que é bonita e formosinha?”.
- Mas o mais giro, Mamã, é que a Senhora Professora pediu que escrevêssemos, NÓS, as nossas falas! – o meu sorriso borbulhava de alegria.
Agachou-se até ficar do meu tamanho. Do meu mundo a minha mãe percebia e, quando descia até a mim, eu sabia que a minha pequenez era, por enquanto, um acidente geográfico.
O grande dia chegara e eu preparara, freneticamente, o meu texto de Carochinha.
Já muito nervosa, vesti o magnífico fato de Carochinha feito pela minha avó. Estava mesmo como eu imaginara. Sentia, no entanto, que me faltava algo: as antenas de carochinha! Procurei-as debaixo da cama, mas delas nada. Não havia tempo a perder. Não podia chegar atrasada ao ensaio. Eu era a actriz principal. Ia mostrar que, apesar da minha distracção de génio (prefiro lembrar-me daqueles “acidentes” desta forma), era capaz de deixar cair a “carne” em cima de um palco!
Veloz, atirei-me para as escadas e, sem saber como, logo me encontrei na escola.
A minha entrada foi entusiasticamente aplaudida. Os meus amigos da terceira
classe borboleteavam à minha volta e a áurea de protagonismo coroava a minha figura.
Rodopiava, agora, em cima do estrado, como se desfilasse numa passarela, pousando e sorrindo, exibindo o meu texto, lendo para todos os que prestavam atenção. Quem sabe, talvez não reparassem que eu não tinha as antenas de carochinha. A D. Albina perseguia a minha cabeça em silêncio. O sorriso pregado no rosto convidava-me a seguir. E eu continuei. Mas a D. Albina exigiu as minhas antenas. Sem elas não havia peça. Não, D. Albina, o importante é o texto, sublinhei. «Repare só como ele se adapta à história verdadeira!». E eu continuei a minha leitura pelo estrado fora, tal e qual um modelo, evitando o assunto das antenas desaparecidas.
Sabia, porém, que já não havia antenas nenhumas. A D. Albina respondia-me com risinhos e eu pensei que estava adorável e que era adorada. Voltámos à questão das antenas mais uma, ou duas vezes, e, ainda a rir-se, a D. Albina, sem mais nem menos, pregou-me um estalo com toda a força e eu não compreendi porquê. Ao ouvir o som único da sua mão na minha cara, senti que a sua raiva me feria como uma lâmina. Aquele estalo estilhaçara-me para sempre.
Fiquei pregada ao estrado. A chorar, colei a mão suada ao fogo da cara. E, nesse preciso momento, ela tirou as antenas de um saco que eu reconheci ser lá de casa. A minha mãe, preocupada, tinha levado as antenas à escola. A D. Albina, espreitando-me, por cima dos óculos, disse-me: «Pode ser que agora aprendas a não ser descuidada e a não perder as coisas!».
Sou uma mulher adulta agora e continuo a perder coisas.
A lição que a Dona Albina me deu, naquele dia, não foi uma lição de responsabilidade. A lição que ela me deu foi que não devia ter confiado no seu sorriso, porque a memória dele, ainda hoje, fere e abre fissuras.
Gisela Pena